Vigília do Mês 05/2026

Reflexão sobre a misericórdia segundo o Evangelho

Há algo na misericórdia de Deus que desconcerta. Não porque seja difícil de entender, mas porque é difícil de aceitar. Estamos acostumados a medir tudo: esforço, mérito, erro, consequência. Vivemos como se a vida fosse uma balança, onde cada ação pesa e define o que merecemos receber. Mas, quando olhamos para o Evangelho, essa lógica começa a ruir.

A misericórdia de Deus não segue a matemática humana.

Ela aparece onde não deveria, alcança quem parecia já ter ido longe demais, e insiste justamente quando esperaríamos o afastamento. É o pai que corre ao encontro do filho que o abandonou, como Jesus narra na parábola do filho pródigo (São Lucas 15:20). É o olhar de Jesus diante da mulher surpreendida em adultério, quando Ele diz: “Eu também não te condeno. Vai, e não peques mais” (São João 8:11). É a cruz, onde, no auge da dor, ainda há espaço para o perdão: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (São Lucas 23:34).

Talvez o mais difícil não seja acreditar que Deus é misericordioso, mas aceitar que essa misericórdia é para mim — inteira, gratuita, sem reservas. Porque, no fundo, carregamos a sensação de que precisamos “merecer” o amor de Deus. E quando falhamos, pensamos que precisamos nos afastar, organizar a vida, consertar tudo… para só então voltar.

Mas o Evangelho mostra o contrário.

Deus não espera que voltemos prontos. Ele nos encontra no caminho, ainda confusos, ainda quebrados, ainda tentando entender onde erramos. “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (São Lucas 19:10). A misericórdia não é uma recompensa para quem acertou depois de errar; ela é o ponto de partida para quem decide voltar, mesmo sem saber como.

E, no entanto, há algo exigente nisso tudo.

Porque a misericórdia que acolhe também transforma. Quando alguém é verdadeiramente alcançado por esse amor, não consegue mais permanecer o mesmo. Não por obrigação, mas porque algo dentro de si muda. Quem foi perdoado de verdade passa a olhar o outro de outra forma. Por isso Jesus nos chama: “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (São Lucas 6:36).

Talvez por isso ela também incomode.

É desconfortável ver Deus sendo bom com quem julgamos não merecer, como na parábola dos trabalhadores da última hora, onde todos recebem o mesmo pagamento (São Mateus 20:1-16). É desconcertante perceber que Ele ama sem seguir os nossos critérios. E, mais ainda, é desafiador entender que esse mesmo amor que me acolhe é o que me chama a acolher o outro — inclusive aquele que eu preferia manter à distância.

No fim, a misericórdia revela algo essencial: Deus não se relaciona conosco a partir do nosso pior momento, mas a partir do Seu amor constante. Ele não nos define pelo erro, mas pela possibilidade de recomeço — como revela o encontro com Zaqueu, que, ao ser olhado por Jesus, encontra um novo caminho (São Lucas 19:1-10).

E talvez seja isso que mais nos assuste… e mais nos salve.

Porque, se a misericórdia de Deus fosse menor, talvez fosse mais fácil de compreender. Mas também seria pequena demais para nos alcançar.

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